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O
Projecto Vamos conversar na escola - Nu ben papia na skola,
embora orientado para o desenvolvimento linguístico de crianças
de várias origens, deu, como o seu próprio nome indica,
uma particular atenção às crianças de origem
ou nacionalidade caboverdiana, por duas razões principais: por
um lado, existia um protocolo de colaboração entre a entidade
promotora do Projecto (a ESE de João de Deus) e a Escola de Formação
de professores do Mindelo; por outro, nos contextos multilingues das
escolas portuguesas (em particular na zona da Grande Lisboa), o crioulo
de Cabo Verde era e é a língua mais falada, para além
do português.
Para aplicar adequadamente
as metodologias propostas no CD-ROM é fundamental ter em conta
que, embora as línguas em contacto sejam em ambos os casos o
português e o crioulo caboverdiano, a realidade linguística
em Portugal e em Cabo Verde não é a mesma.
Vejamos, pois, de uma forma
muito breve, algumas características típicas de cada um
dos contextos sociolinguísticos em que as crianças se
inserem e as ilações que podemos tirar em termos pedagógicos
e didácticos.
Contextos Sociolinguísticos
Em Portugal
Em Portugal
é muito provável encontrarmos turmas mistas de alunos
falantes do português como língua materna, falantes de
português como língua não materna (e, eventualmente,
alunos falantes de outras línguas maternas que ainda não
dominam o português).
Os alunos
caboverdianos ou portugueses de origem caboverdiana estão,
em geral, colocados em escolas onde predomina ou é elevado
o número de alunos da mesma origem que a sua.
Os professores,
salvo raríssimas excepções, não dominam
(não falam nem compreendem, embora alguns pensem que sim) o
crioulo caboverdiano e confundem, sob a mesma designação
de "crioulo", tanto o caboverdiano, como o santomense, o principense
e o guineense. Os alunos, em geral, assumem que devem esconder do
professor a sua língua e usá-la apenas com os colegas.
Há
alunos de outros grupos ou origens, como os ciganos e os angolanos,
que comunicam em crioulo com os caboverdianos, embora o seu crioulo
corresponda ainda, naturalmente, a uma variedade ou a um estádio
de aprendizagem.
Alguns
alunos caboverdianos bilingues, quando nascidos em Portugal, têm,
por vezes, um domínio pouco desenvolvido de ambas as línguas,
não pelo facto de serem bilingues (o que constitui uma riqueza
e um factor de desenvolvimento linguístico e metalinguístico),
mas por não terem tido oportunidades de contacto sistemático
com inputs de qualidade (variados do ponto de vista estrutural e lexical
e estilisticamente adequados às diferentes situações
de comunicação) nas duas línguas, ou por fazerem
transferências constantes de uma para outra.
Encontramos,
assim, falantes com pouco vocabulário activo e passivo, com
dificuldades em produzir textos coerentes em situações
básicas como a narração ou a descrição
e que misturam as duas línguas a nível fonológico,
morfológico, sintáctico, lexical e mesmo semântico.
Esta última
situação (de transferência), típica do
contacto de línguas, poderá não ser dramática
do ponto de vista comunicativo, mas cria problemas e penalizações
na escola, onde os professores, sobretudo a partir do 2.º ciclo,
esperam que os alunos produzam um português aproximado da imagem
que eles próprios têm da norma.
Os pais,
por vezes, evitam falar crioulo com o aluno e usam uma variedade do
português que quase nunca corresponde à esperada na escola.
No entanto, no bairro, a criança continua a falar só
crioulo caboverdiano.
Apesar
de poder não dominar bem o português, a criança
compreende a sua utilidade, pois vive em Portugal.
Em Cabo
Verde
O aluno
chega frequentemente à escola, sobretudo nas zonas do interior
das ilhas, sem falar português mas com um bom domínio
da língua crioula que usa em todas as circunstâncias
do seu quotidiano. Apesar de ser confrontado com outra língua
de ensino, continua a usar livremente o crioulo na escola, mesmo na
sala de aula.As motivações para a aprendizagem do português
podem não ser bem claras para a criança, pois vive em
Cabo Verde onde, apesar de o português ser ainda a única
língua oficial, toda a vida se processa em crioulo, a começar
em casa.
O professor,
ao contrário do que se passa em Portugal, domina perfeitamente
a língua materna crioula e, em certas zonas, domina o português
apenas como L2.
Actualmente
a criança também pode encontrar na aula falantes de
outras línguas maternas (como, por exemplo, chineses).
Ilações a tirar
Em primeiro lugar,
em Portugal, é fundamental:
Em Cabo Verde
Tudo o que ficou dito relativamente
a Portugal é válido também para Cabo Verde,
mas devem-se ainda reforçar, de uma forma muito especial:
- as motivações para a
aprendizagem do português, sem desvalorização
da língua materna, acentuando, numa perspectiva funcional,
as vantagens do seu uso;
- a exposição ao modelo
da língua portuguesa, sobretudo a nível da oralidade.
As actividades de desenvolvimento
linguístico, para serem eficazes, devem não só
motivar as crianças, fazendo apelo às suas experiências,
conhecimentos e interesses, como também contribuir para o seu
desenvolvimento em termos culturais, sociais e humanos.
Nesse sentido, é fundamental
definir previamente os temas que servem de base às referidas
actividades, de preferência em articulação com os
conteúdos das outras áreas de aprendizagem (estudo do
meio, matemática, educação visual...).
Embora muitos
dos temas possíveis (o corpo, a família, as festas, etc.)
sejam, em geral, de interesse para todas as crianças da mesma
idade, qualquer que seja a sua origem e o local em que habitam, outros
há que têm de ser seleccionados em função
dos contextos sociais em que a criança se move (acesso ou
não a meios informáticos e à televisão;
vivência em cidades ou zonas rurais, etc.).
Deste modo,
há que variar alguns temas, em Portugal e em Cabo Verde.
Por outro
lado, muitos dos objectivos que presidem à metodologia
das Conversas, proposta pelo CD-ROM Nu Ben Papia na Skola,
são igualmente válidos em ambos os contextos sociolinguísticos,
tais como (partindo de documentos autênticos como um desenho ou
um texto realizados pelas crianças):
- desenvolver
a capacidade de observação minuciosa daquilo que nos
rodeia incluindo as imagens);
- desenvolver
o gosto pelo exercício do pensamento e da reflexão,
como condição para a verbalização criativa;
- aprender
a interpretar um texto, recorrendo ao saber sobre a língua
e sobre o mundo para ler o que é dito nas linhas e nas entrelinhas
e atribuir-lhe significado;
- desenvolver
o gosto pelo comentário oral, em grupo;
- desenvolver
a imaginação e o gosto pela criação de
textos (orais ou escritos) pessoais e diferenciados;
- criar hábitos
de síntese e de registo escrito das aprendizagens novas.
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