Um pouco de História
Até há muito pouco tempo, a língua caboverdiana não tinha uma grafia (uma forma de representação gráfica) oficial, definida e decretada pelo governo e pela assembleia nacional. A língua crioula caracteriza-se, pois, como língua de tradição oral. Na verdade, em Cabo Verde, o crioulo é uma língua nacional, falada por todos, desde a infância, mas ainda não tem o estatuto de língua oficial que, por enquanto, é exclusivo da língua portuguesa. Esta, por seu turno, não é falada por toda a população, havendo muitos jovens, sobretudo no interior das ilhas, que só com ela contactam à entrada para a escola, o que, em muitos casos, acontece tardiamente, por volta dos sete ou dos oito anos de idade.
Para que uma língua tenha o estatuto de oficial é necessário que sofra um processo de normalização e de instrumentalização. A normalização consiste na escolha de uma variedade (regional, social...) para servir como modelo (padrão) e como base para a instrumentalização (elaboração de gramáticas e de dicionários, definição de uma ortografia, etc.). Uma vez oficializada, a língua passa a ser usada e ensinada na escola que, a par dos meios de comunicação de massas e da produção literária, constitui um suporte privilegiado e imprescindível do seu novo estatuto.
Entre a adopção de uma ortografia e a sua aceitação e aplicação sistemática no seio da comunidade medeia, pois, um período relativamente longo que passa, entre outros factores, pela sua aprendizagem por uma nova geração de alunos.
Os caboverdianos - que aprenderam a ler e a escrever em português - têm utilizado, à sua maneira, a ortografia da língua portuguesa para escreverem em crioulo, quando a necessidade ou o desejo se impõem: em poemas, recados, cartas aos familiares, letras de canções, informações ao público em áreas importantes como a saúde, artigos de jornal, recolhas de tradições orais, etc.
Trata-se de uma escrita espontânea, não regulada e, por isso, muito variável e quase sempre incoerente.
Eis um bom exemplo, retirado de uma carta escrita por um falante de Fajanzinha -Mosteiros (ilha do Fogo) (11 de Abril de 1987) ao programa Kauberdi di nos pa nos tudu [1]:
Bom ami pam cá dixá cusas passá um tem tchéu di frá nhôs, má qui cá ta bai só di ês um bês; Um pô nhâ balaî riba tchada cabeça n' pô ta subí pam lebá pêxe casa fidé di Mioda, tchiga cansado um sintá bêra porta, Lionarda mudjê di Fidé dam cafê cú batata assadu, dento tumá cafê um ódjâ um navio branco li na pé di terra [...]
Bom, eu, para não deixar passar as coisas (a oportunidade), tenho muito que vos dizer, mas não vai tudo desta vez só. Pus o meu balaio à cabeça e pus-me a subir para levar peixe a casa do Fidel de Mioda. Cheguei cansado, sentei-me à porta. A Leonarda, mulher do Fidel, deu-me café com batatas assadas. Quando estava a tomar o café vi um navio branco perto da terra [...].
Na escrita espontânea, por vezes, a mesma palavra muda de grafia, mesmo quando escrita pelo mesmo indivíduo. É o caso da primeira pessoa do singular do pronome pessoal sujeito (port. eu), que ocorre como m (em pam cá dixá cusas passá), um (em um tem tchéu) e n' (em n' pô ta subí).
Também é comum a dificuldade em reconhecer os limites das palavras crioulas, uma vez que os falantes, embora as usem naturalmente na oralidade, nem sempre as identificam enquanto unidades autónomas, pois não têm o hábito de as analisar gramaticalmente, nem costumam vê-las escritas.
É assim que, na expressão pam lebá pexe (para eu levar peixe), o pronome (representado aqui por m) está associado à preposição anterior (pa), como se se tratasse de uma única palavra.
Uma outra característica comum é a indecisão entre uma forma de grafia decalcada do português (cabeça, branco, terra) e uma grafia mais próxima da pronúncia crioula (assadu, tumá...).
Antes da independência de Cabo Verde, em 1975, embora muitos intelectuais caboverdianos tenham lutado pela dignificação do crioulo como factor fundamental de afirmação da caboverdianidade (nomeadamente o grupo dos Claridosos), estudando-o, promovendo-o e, sobretudo, usando-o na expressão literária, nunca se perfilou a ideia da oficialização do crioulo nem a da sua normalização.
A língua portuguesa, como língua oficial, parecia servir os interesses de Cabo Verde que, à data da independência, contava com cerca de 70% de analfabetos adultos.
Por outro lado, mesmo após a independência, instalou-se, em muitos, a ideia errónea de que a oficialização do crioulo implicaria o abandono do português, língua que, dado o seu peso internacional (para além das relações históricas, tradicionais e afectivas) era imprescindível à sobrevivência e ao desenvolvimento do país.
A tendência para o alargamento da escolaridade obrigatória a toda a população veio, no entanto, fazer reequacionar a questão. Começaram a chegar à escola crianças e adultos monolingues (ou com um conhecimento muito incipiente da língua oficial) para os quais não havia ainda suficiente número de professores de língua portuguesa com formação adequada.
A necessidade de afirmação da identidade nacional recentemente conquistada, por sua vez, criou em alguns o desejo de ruptura com a língua da colonização. No entanto, prevaleceu, desde muito cedo, uma linha de pensamento que viria a informar a política linguística caboverdiana: a consciência das vantagens de valorização das duas línguas, em pé de igualdade, e da promoção, junto dos falantes, de um bilinguismo funcional - domínio de ambas as línguas e capacidade de as usar, em função dos contextos.
A oficialização do crioulo surge, então, como um horizonte possível e desejável, embora eventualmente longínquo, dependendo, entre outros factores, de um trabalho sistemático prévio de investigação sobre a língua (que a perspectiva colonial sempre tinha desencorajado).
É assim que, em Abril de 1979, surge o primeiro Colóquio sobre a problemática do estudo e da utilização do Crioulo, conhecido como "Colóquio do Mindelo", que reúne linguistas e investigadores nacionais e estrangeiros, de várias áreas das Ciências Humanas, de algum modo interessados no estudo das línguas crioulas ou no desenvolvimento sociolinguístico da comunidade caboverdiana. É um encontro de experiências, de reflexões e de propostas de investigação, uma vez que não havia ainda, nessa altura, estudos suficientemente desenvolvidos que permitissem chegar a conclusões de carácter linguístico nem à definição de políticas linguísticas imediatamente aplicáveis.
É neste contexto que, pela primeira vez, se faz uma reflexão sobre o modo de representar graficamente a língua crioula. Recorrendo ao conhecimento de outras experiências de escrita de línguas africanas de tradição oral, alguns investigadores presentes desenham um primeiro esboço de alfabeto para o crioulo que apresentam como proposta a ser, necessariamente, testada e eventualmente reformulada, em função, entre outros factores, da posterior análise fonológica e fonética que se impunha.
No entanto, mesmo antes de se efectuarem esses estudos, alguns autores, legitimamente desejosos de transmitir as suas ideias na língua nacional e conscientes da necessidade de contrapor um sistema regrado e uniforme de escrita ao carácter aleatório das escritas espontâneas, começaram desde logo a aplicar a referida proposta nos seus escritos literários e metalinguísticos.
Surgem, assim, obras romanescas, como Oju d'Agu, de Manuel Veiga, e de divulgação das tradições orais, como Na Bóka Noti, de Tomé Varela da Silva, que, apesar do reconhecimento do seu valor enquanto obras, tiveram, em geral, no que diz respeito à grafia, um impacte negativo na comunidade intelectual caboverdiana.
Por três razões: primeiro, porque utilizavam grafemas e diacríticos que não tinham correspondente na tradição de escrita em português, aquela em que os potenciais leitores tinham sido alfabetizados, o que dificultava grandemente a descodificação e a leitura fluente (por exemplo, ^c, ^s, ^z, ^j, ^n e ^l muito dificilmente eram reconhecidos como "tch", "ch", “j”, “dj”, “nh” e “lh”, respectivamente); segundo, porque os falantes de outras ilhas que não a de Santiago, em especial os das ilhas de Barlavento, não encontravam representações gráficas que satisfizessem as necessidades das suas variedades de crioulo; em terceiro lugar, muitos caboverdianos interpretaram o uso recorrente do novo alfabeto como sendo sinal de um facto consumado e imposto do exterior e não o mero exercício ou experimentação de uma solução gráfica que tinha sido apresentada com o estatuto devido, i.é, como proposta a validar, quer no decurso de investigações posteriores, quer no confronto com os interesses da comunidade.
Entre aceitações e rejeições, por vezes contundentes, foram coabitando, durante mais dez anos, esta nova proposta e as manifestações mais diversas de escrita espontânea, sem que houvesse qualquer decisão oficial sobre o caminho a dar à escrita do crioulo.
Entretanto, em 1987, surge, no Ministério da Educação, motivado e apoiado pela Cooperação Suíça em Cabo Verde, um projecto novo de alfabetização de adultos (que viria a durar até 1992). Tratava-se, inicialmente, por vontade da entidade promotora, e na sequência das directrizes da UNESCO (IV Conferência Internacional de Educação de Adultos, 1985) que consignam o direito de todos os indivíduos ao ensino em língua materna, de um projecto de alfabetização em crioulo. Por acordo dos consultores estrangeiros e dos nacionais que integravam a equipa [2], bem como do Ministro da Educação, o projecto passou a ter como objectivo a alfabetização não só em língua materna, mas também em língua portuguesa, tomando a designação de Projecto Experimental de Alfabetização Bilingue: os alunos seriam alfabetizados numa primeira fase em crioulo (a língua que dominavam desde a infância) e, posteriormente, em português (enquanto língua segunda). Procurava-se, assim, não só ser realista (não haveria vantagem em alfabetizar apenas em crioulo sabendo que a única língua oficial era o português), como reconhecer e promover o valor da língua materna e ainda melhorar os métodos didácticos e o sucesso educativo, pondo em prática a ideia prevalecente das vantagens e da necessidade política de um bilinguismo funcional em Cabo Verde.
Em muitas partes do mundo em que há línguas de tradição oral, é frequentemente a urgência imposta pelas necessidades do ensino que acaba por incentivar e até determinar, em termos oficiais, as decisões de instrumentalização dessas línguas.
O facto de termos de alfabetizar em crioulo obrigou, imediatamente, a considerar, para além das questões metodológicas específicas, a necessidade de produzir manuais com textos de referência que servissem de base à aprendizagem e ao desenvolvimento das capacidades de leitura dos alfabetizandos.
Ora era condição sine qua non, para a produção dos textos, a existência de um sistema gráfico.
Não havendo uma aceitação generalizada (nem social, nem mesmo política) da chamada proposta do Mindelo, foi a consultora de linguística do projecto de alfabetização bilingue [3] incentivada a fazer a sua própria proposta de grafia, num prazo útil para o desenvolvimento do projecto e sua aplicação no terreno que, numa primeira fase, seria na ilha de Santiago, prevendo-se que a experiência fosse, posteriormente, alargada a outras ilhas de Sotavento e de Barlavento.
É assim que surge uma nova grafia para representar o crioulo de Santiago, variedade em que foram escritos os primeiros manuais. Trata-se, naturalmente, de uma grafia e não de uma ortografia (como o simples facto de ser confinada a uma ilha revela...) que, apesar da sua motivação pragmática e imediatista, foi elaborada a partir do estudo de uma bibliografia especializada (nomeadamente, sobre modelos ortográficos, sobre a passagem à escrita de outras línguas crioulas e sobre as relações entre a escrita e a política e a planificação linguísticas) e de um trabalho de investigação sobre a gramática e o léxico do crioulo de Santiago, fundamental para, entre outros aspectos, fixar a forma das palavras e grafar as suas relações gramaticais e não apenas transcrevê-las alfabeticamente.
Na verdade, não basta saber que um determinado som se escreve p e outro a ou m... É preciso saber, por exemplo, como vimos acima, que pa é uma palavra (uma preposição) e que o som que se ouve ou diz no final de pam corresponde, também, a uma palavra (o pronome pessoal sujeito na 1ª pessoa do singular).
Do mesmo modo, se os falantes usarem diferentes formas fónicas para uma mesma palavra, como por exemplo baléi ou balai (port. balaio), há que decidir qual delas há-de figurar no dicionário e servir como "representante" de todas as pronúncias existentes ou possíveis.
A nova grafia é apresentada em 1989, na cidade da Praia, juntamente com todas as actividades, documentos de descrição linguística e materiais elaborados, até então, no âmbito do Projecto piloto, num encontro a que se deu o nome de Fórum sobre Alfabetização Bilingue (23 e 24 de Junho de 1989). O texto contendo a Proposta de Grafia e os argumentos que a opõem à proposta do Mindelo é nesse mesmo ano publicado pela autora, de forma abreviada, na Revista Internacional de Língua Portuguesa [4], tendo a fundamentação teórica sido apresentada no documento Normalização e Ortografia: Tipos de Problemas e na comunicação Odju ka ten pastor, mas é midjor si bu prende odja, publicada nas Actas do Fórum.
Essa mesma grafia tem vindo a ser aplicada com sucesso na produção de textos escritos e na transcrição de textos orais, no âmbito da cadeira de Crioulos de Base Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) [5].
É na sequência da discussão do documento com os defensores da anterior grafia e com os participantes no Fórum que, por proposta do então Ministro da Educação, Corsino Tolentino, se forma uma Comissão Consultiva que tem como incumbência analisar a nova proposta e sobre ela redigir um parecer que, a ser favorável, alteraria, nos pontos relevantes, os anteriores hábitos de representação gráfica.
Essa Comissão [6] (liderada por Manuel Veiga, na parte respeitante aos estudos linguísticos) emite, em 24 de Agosto de 1989, um parecer que se mostra favorável, na sua globalidade, embora com algumas alterações, à proposta de grafia do Fórum.
Apesar de os seus subscritores afirmarem que "o parecer, no que tange à instrumentalização da língua caboverdiana, tem a força apenas de uma proposta, num contexto de experiência piloto pontual e localizada no tempo e no espaço" e que "o alfabeto e a escrita da língua caboverdiana transcendem a experiência piloto que se pretende levar a cabo e, por conseguinte, também o âmbito desse mesmo parecer" (p.24), na verdade, a proposta do Fórum e as recomendações por ela suscitadas acabam por ultrapassar os limites da experiência (cujos materiais foram publicados na nova grafia [7]) e impor o abandono da grafia do Colóquio do Mindelo, na sua forma original.
Disso é prova o artigo publicado no jornal Voz di Povu (em 17 de Janeiro de 1991), intitulado Na bespa di mudansa, un perda kultural e assinado por um dos principais utilizadores e divulgadores da antiga proposta, Tomé Varela da Silva. Eis um excerto:
Un dia ántis di fin di kanpanha iletoral pa purmeru ileson lejislativu pluripartidari na nos tera ...nos povu sufri un choki na si rikeza kultural: more NHA GUIDA MENDI, un di kes mas grandi (sinon mas grandi propi) batukadera ki Kauberdi dja pari! [8]
Um dia antes do fim da campanha eleitoral para as primeiras eleições legislativas pluripartidárias na nossa terra ... o nosso povo sofreu um abalo na sua riqueza cultural: morreu a Senhora GUIDA MENDES, uma das maiores "batucadeiras" (se não mesmo a maior) que Cabo Verde alguma vez gerou!
O ALUPEC
No entanto, a nova prática não ganhou imediatamente estatuto oficial.
Quatro anos mais tarde, em 1993, constitui-se um novo grupo [9] (Grupo para a padronização do alfabeto) cujo trabalho, apresentado em Maio de 1994, só viria a ser objecto de uma decisão governamental, em Dezembro de 1998, sendo publicado oficialmente, em decreto (Decreto-Lei nº 67/98, série nº48 - Sup. «B.O.» da República de Cabo Verde, de 31.12.98), o "Alfabeto Unificado para a Escrita da Língua Cabo-verdiana (o Crioulo)" (designado como ALUPEC), em que se lê, nos preâmbulos:
Sendo o Crioulo a língua do quotidiano em Cabo Verde e elemento essencial da identidade nacional, o desenvolvimento harmonioso do País passa necessariamente pelo desenvolvimento e valorização da língua materna. Porém, esse desenvolvimento e valorização não serão possíveis sem a estandardização da escrita do Crioulo ou seja da Língua Cabo-verdiana. Ora, a estandardização do alfabeto constitui o primeiro passo para a estandardização da escrita.
Fica assim muito claro que o ALUPEC não determina, ainda, as bases da escrita do crioulo, mas apenas o conjunto de grafemas (e também de diacríticos) que constituem o alfabeto, bem como as regras da sua aplicação na transcrição ou representação gráfica das unidades lexicais da língua, nas suas diferentes variedades.
A "estandardização da escrita" a que o preâmbulo se refere exigirá, naturalmente, entre outros aspectos, a fixação da forma gráfica das palavras, tendo como modelo a variedade que for escolhida para padrão.
O ALUPEC foi aprovado "a título experimental" (artigo 1.º) por um período de cinco anos que findou em Dezembro último (31.12.2003). "Findo o período experimental e ouvidas a Comissão Consultiva para a Língua Cabo-verdiana e demais entidades ligadas à problemática da escrita da mesma, procederá o Governo a uma avaliação final do impacto do uso do ALUPEC e adoptará as medidas que se mostrarem convenientes" - lê-se no Artigo 4.º.
Este é o exacto momento de aguardar tais medidas, bem como os passos subsequentes, na direcção da estandardização do crioulo.
Pa nu skrebe na skola
Um dos contextos em que, cada vez mais, se coloca prementemente o problema da escrita do crioulo de Cabo Verde, é, mais uma vez, o do ensino.
O Projecto Experimental de Alfabetização Bilingue teve um tempo, como todos os projectos, tendo terminado pouco após a mudança do primeiro para o segundo governo da República. Apesar do seu sucesso em termos de aprendizagem e da avaliação positiva de que foi objecto, quer interna, quer externamente, a experiência piloto não teve o desejável alargamento a novos contextos e ilhas e, neste momento, a alfabetização de adultos faz-se apenas em língua portuguesa, tal como todo o ensino formal, sendo o crioulo apenas ministrado, como disciplina, a nível do ensino superior.
Diz-se, no texto do decreto citado, que " é imprescindível que haja uma política linguística clara e com reflexos positivos na política de ensino" e que "a Reforma do Sistema Educativo deverá implementar uma estratégia de ensino do Crioulo, tendo em devida conta as implicações da introdução da nossa língua dos curricula." Para tanto, parece ser também imprescindível a "formação de quadros": "o país terá de planificar a formação de técnicos necessários à implementação da política linguística, tendo em consideração as necessidades do ensino formal".
Estas afirmações apontam para o facto de ser prematuro considerar o ensino do crioulo e em crioulo, nas escolas, enquanto, entre outros factores, não se derem todos os passos para a "padronização da escrita" (a levar a cabo por "uma estrutura científica" que deverá ser constituída para o efeito) e enquanto não se criarem todas as condições (nomeadamente, humanas) para a sua implementação e divulgação.
Assim sendo, poderíamos ser levados a pensar não haver justificação para, no âmbito do projecto Nu ben papia na skola, fazermos uma reflexão sobre o modo de escrever crioulo, actualmente, nas escolas do ensino básico de Cabo Verde. Por maioria de razão, menos se justificaria ainda que o fizéssemos a pensar nas escolas portuguesas, apesar de aí encontrarmos um número elevado de alunos falantes de crioulo caboverdiano.
No entanto, aqueles que, no quotidiano, lidam com a realidade escolar, sabem como é urgente, quer do ponto de vista pedagógico, quer do ponto de vista didáctico, ter à disposição um modo sistemático e codificado de representar graficamente a língua materna dos seus alunos.
Tomemos o caso português.
Muitas são as escolas que contam com uma percentagem elevada de alunos de origem caboverdiana. Num recente estudo realizado pelo ILTEC (Instituto de Linguística Teórica e Computacional) [10] em 610 escolas do primeiro e do segundo ciclos de 11 concelhos da Grande Lisboa, encontramos, nas 410 escolas que responderam ao inquérito, 2992 alunos que dizem falar caboverdiano em casa e 1970 que dizem falar caboverdiano na escola, com os colegas.
Perante tal situação, os professores, mesmo pondo provisoriamente de parte a possibilidade de um ensino bilingue, têm ainda duas alternativas. Ou ignoram a língua materna dos alunos, ou, pelo contrário:
Felizmente, em Portugal, já há muitos educadores de infância e professores que têm esta atitude e esta perspectiva, embora não tenham ainda, na maior parte dos casos, formação nem instrumentos que lhes permitam pôr em prática, plenamente, as suas intenções.
Um dos instrumentos que falham é, precisamente, a escrita.
Algumas das actividades didácticas que favorecem a concretização dos pressupostos acima e que envolvem a escrita são, por exemplo, a elaboração de vocabulários temáticos com palavras em várias línguas, incluindo a língua materna; a criação de um texto colectivo para uma peça de teatro com personagens que falam crioulo; a redacção de jornais em que se incluem pequenas estórias, anedotas ou notícias na língua de origem das crianças; a recolha, por parte dos alunos, de expressões, adivinhas, etc., produzidas pelos familiares; a comparação entre expressões em português e em crioulo para compreensão das diferenças gramaticais e das possíveis interferências, etc.
Saber escrever, no quadro ou no papel, com segurança, as expressões do aluno, sobretudo em textos que vão ser publicados, contribui para atribuir valor e legitimidade a uma língua que, muitas vezes, é sentida por este como desprezada ou pouco importante, mas que é a sua.
Por outro lado, a compreensão de que diferentes línguas se escrevem de diferentes maneiras permite criar, no aluno, a ideia (difícil mas fundamental para o progresso da aprendizagem) de que existe uma grande distância entre escrita e oralidade.
Também, para o professor, ter um código de representação da língua do aluno traz a grande vantagem de poder registar expressões que posteriormente analisará, com vista ao estudo contrastivo acima mencionado.
Como escrever então?
Para um professor que não domine a língua crioula, nunca será fácil passar a escrito as frases que os alunos dizem, porque não basta saber usar o alfabeto, é preciso, também, distinguir onde começa e acaba cada uma das palavras, como vimos. Na verdade, quando falamos, as palavras sucedem-se sem intervalos, num constante contínuo sonoro que só o nosso saber da língua permite segmentar adequadamente.
Assim, por exemplo, se um português disser qualquer coisa como:
Nãomepossesquecerojedabriratelvisãoàsduazoras
só outro falante de língua portuguesa saberá fazer as separações e reconstruir a forma das palavras como se elas estivessem a ser pronunciadas isoladamente:
Não me posso esquecer hoje de abrir a televisão às duas horas.
No entanto, o professor pode sempre recorrer às crianças, pedir-lhes que pronunciem as frases pausadamente e que façam a tradução para português. Com o recurso a um dicionário ou o pedido de ajuda a um adulto que fale crioulo (por exemplo um pai...), acabará por ir resolvendo os casos mais problemáticos. Os próprios dicionários têm alguns apontamentos de gramática que permitem reconhecer as palavras mais comuns, como os pronomes pessoais ou os pronomes possessivos, a negação, as preposições, etc.
Claro que será mais fácil, para o professor, escrever palavras soltas. Por exemplo, nas actividades de desenvolvimento do vocabulário, se o professor conhecer bem o alfabeto, terá o problema praticamente resolvido. Basta ouvir com atenção o modo como o aluno pronuncia a palavra. Como não existe ainda, como vimos, uma grafia obrigatória e fixa para cada palavra, o professor tem de "seguir o seu ouvido" e escrever as letras de acordo com os sons que escuta.
Assim, se o aluno, para significar, em crioulo, "casa", disser kasa, o professor deverá escrever com s. Mas, se disser kaza, deverá escrever com z. Isto porque se convencionou que o som S tem sempre a mesma representação, em crioulo: s.
Esta convenção torna tudo mais fácil. Em português, o som S pode ser representado por
s ss c ç x
como em sonhar como em passar como em cedo como em caça como em sintaxe
A outra grande dificuldade da escrita da língua portuguesa é a de a mesma letra poder representar múltiplos sons.
Assim, a letra s, não só pode representar o som S, mas também
Por isso é que os nossos alunos, qualquer que seja a sua origem, têm dificuldade em conhecer a grafia certa das palavras portuguesas.
Aquilo que dissemos para o som S é válido para os outros sons, no sistema de representação escrita que aqui vamos propor que o professor adopte e que (no que diz respeito ao alfabeto) segue de perto a grafia do ALUPEC e do Projecto Experimental de Alfabetização Bilingue.
A ideia base é a seguinte:
Diz-se tanto quanto possível porque isso nem sempre acontece, como veremos. É o caso da letra a que pode representar o chamado a aberto, como em kasa, e também o a fechado, como em kusa.
Vejamos, então.
Para que o professor de língua portuguesa possa identificar melhor os sons crioulos, daremos sempre exemplos de algumas palavras portuguesas em que esses mesmos sons ocorrem.
Como se pode verificar, existe, nesta grafia, uma maior correlação entre som e grafema do que na escrita da língua portuguesa, o que a torna mais fácil. De reparar, por exemplo, que o som u do masculino dos nomes e dos adjectivos que, em português, se escreve sempre com um o, em crioulo escreve-se "como se diz", com um u (v. mininu). Também as vogais nasais não mudam o n para m, antes de -b ou de -p.
O g "vale" G, mesmo antes de e ou de i e o s lê-se sempre S, mesmo entre vogais.
Para além dos grafemas que constam dos quadros acima, adoptou-se, ainda, de acordo com o ALUPEC, o y para representar o som I apenas num contexto: quando estamos perante uma conjunção copulativa: Djon ba piska y dipos e ba Tarafal (O João foi pescar e depois foi ao Tarrafal).
Para distinguir claramente a forma da primeira pessoa do singular do pronome pessoal sujeito (port. eu) que se realiza, em crioulo, através de uma consoante nasal única, adoptou-se um N maiúsculo.
Podemos encontrar uma consoante nasal velar em palavras como nguli (engolir) ou ngaba (gabar) que, segundo o ALUPEC, deverão ser grafadas com um trema sobre o n. Para facilitar a sua representação, nomeadamente a escrita com os programas de processamento de texto mais comuns e acessíveis, propõe-se que os professores usem apenas o n, sem trema.
O hífen usa-se para ligar visualmente os pronomes pessoais complemento às formas verbais a que estes estão associados: por exemplo, e fla-l (port. ele disse-lhe). Pode ser usado, igualmente, para ligar elementos de um composto lexical, como em arku-di-bedja (port. arco-da-velha).
O acento é uma questão ainda muito problemática, pois é geralmente usado com uma função ambígua:
Veja-se, em português, lápis e tâmara: ambos os sinais servem para acentuar a sílaba tónica, mas, enquanto o acento agudo "abre" a vogal, o acento circunflexo "fecha-a".
Dado que os professores, em Portugal, desconhecem o sistema vocálico crioulo, torna-se difícil, se não houver um qualquer sinal gráfico, saber se um a, um e ou um o são mais abertos ou mais fechados, o que é muito importante, pois a simples mudança na abertura da vogal pode remeter para palavras diferentes, como em korta ( cortar) e kórta (apanha do milho).
É também muito importante que o professor, ao registar as expressões do seu aluno, possa vir a recuperar, posteriormente, o modo adequado de as pronunciar.
Assim sendo, fazemos aqui uma proposta pragmática de acentuação gráfica [11].
Em geral, em crioulo de Cabo Verde (variedade de Santiago), as palavras que acabam em vogal oral simples são acentuadas na penúltima sílaba e as que acabam em vogal nasal, em ditongo e em consoante, na última (as sílabas tónicas são representadas a negrito):
Nestes casos, não se justifica qualquer acento gráfico, a menos que o professor precise de identificar a abertura da vogal e, então, teremos kása, para marcar que o primeiro a é mais aberto e o segundo mais fechado.
Nos casos em que as vogais são fechadas, para economizar, não se coloca nenhum acento. Assim, ao lermos profesor, podemos raciocinar do seguinte modo:
Ao contrário, katxór (cão), tem acento agudo na última sílaba pois, apesar de seguir a regra geral, contém uma vogal aberta (em txór).
Em palavras que fogem à regra geral de acentuação, convém marcar sempre o acento (agudo para vogais mais abertas e circunflexo para as mais fechadas).
Assim, em lápis, o acento agudo indica que, ao contrário do que se esperava, a palavra, apesar de acabada em consoante, não é acentuada na última sílaba, mas sim na penúltima (lá), ao mesmo tempo, indica que o a é mais aberto.
O mesmo poderíamos dizer da palavra senpé (centopeia). Esta palavra, acabada em vogal, deveria, segundo a regra geral, ser acentuada na penúltima sílaba, Como tal não acontece, recebe o acento agudo sobre a vogal final, que é aberta.
Grafia espontânea original
Grafia proposta
Bon, ami, pa N ka dixá kusas pasá, N ten txeu di fra nhós, má ki ka ta bái só di es bes. N po nha balai riba txáda kabesa, N po ta subí pa N lebá pexe kása Fidé di Moda. Txigá kansádu, N sintá bera porta. Lionarda, mudjé di Fidé da-m kafê ku batáta asádu. Dentu tumá kafê N odjá un naviu branku li na pé di térra [...].
Com um pouco de prática e com a ajuda dos alunos ou de outros falantes de caboverdiano, não será difícil começar a escrever em crioulo.
Observação: se os professores tiverem algumas dúvidas poderão colocá-las à autora deste texto, através do endereço dulce_pereira@yahoo.com, identificando o assunto com a expressão nu ben skrebe na skola [1] Criado e produzido por Horácio Santos e emitido pela rádio da cidade da Praia. [2] Marcela Ballara, Dulce Pereira, Manuela Menezes e Arminda Brito. [3] A autora do presente texto (Dulce Pereira; na altura, Dulce Fanha). [4] Fanha, Dulce. 1989 .“Crioulo de Cabo Verde: Proposta de Grafia”. Revista Internacional de Língua Portuguesa, 2. Dez. de 1989: 41-48. [5] Orientada pela autora. [6] Constituída por Albino Tavares, Alice Matos, André Moura, Arminda Brito, Inês Brito, Manuel Veiga e Tomé Varela. [7] Na pequena gramática do crioulo de S. Vicente que elaborou no âmbito do projecto, Estudos Gramaticais - Variedade de S. Vicente, a autora faz um estudo de adaptação à variedade de S. Vicente da proposta de grafia que anteriormente apresentara para a variedade de Santiago. [8] Sublinhado nosso. Repare-se nos grafemas sublinhados que vêm substituir, respectivamente, o ^z, o ^s e o ^j da anterior proposta. [9] Manuel Veiga (presidente), Alice Matos, Dulce Duarte, Eduardo Cardoso, Inês Brito, Luis Hopffer Almada e Tomé Varela da Silva. [10] Coordenado por M. Helena Mira Mateus, Glória Fisher e Dulce Pereira [11] A acentuação gráfica para efeitos de reconhecimento da abertura da vogal é dispensável no contexto de Cabo Verde, em que os professores dominam a língua crioula. Neste caso, basta utilizar o acento gráfico para marcar a sílaba tónica quando a acentuação da palavra não segue a regra geral.
Observação: se os professores tiverem algumas dúvidas poderão colocá-las à autora deste texto, através do endereço dulce_pereira@yahoo.com, identificando o assunto com a expressão nu ben skrebe na skola