VAMOS CONVERSAR SOBRE... Eu Gostava de Aprender
  Propostas Metodológicas, Dulce Pereira
Recolha de Textos Autênticos,
Maria da Luz Correia, Dezembro, 2003
Destinatários: alunos do Jardim de Infância (5, 6 anos); Ensino Básico
Motivação: Conhecer e dar a conhecer a família
 
 

Texto:
Eu quero aprender o Crioulo que a Eugénia fala.

Ela é uma menina com trancinhas à frente e atrás e é magrinha que nem um palito.

A Eugénia fala um bocadinho de Crioulo, mas não é como a minha mãe fala.
 

Ela diz "Pa modo di?" e a minha mãe diz "Modo di ken?" ("Porquê?", em Português). Ela diz "Largame" ("Deixa-me!", em Português).

Eu quero aprender Crioulo para falar com os meus amigos da escola.

Ariana (6A 7M) / Lisboa, 25.01.2003

 

Nem todas as crianças sabem o que querem.
Nem todas as crianças dizem o que querem.
Que sorte, para a Ariana e para nós, que ela saiba e diga tão bem o que quer.



Conversa com as crianças
A Ariana é um bom exemplo para as crianças. Vamos pedir-lhes, então, que digam também o que querem.

Eu quero...
Eu queria...


Qual será a diferença entre dizer eu quero e eu queria?

Vamos tornar os nossos desejos ainda mais fortes:

Eu quero muito...
Eu quero muito, muito...
Eu quero tanto...
Eu quero mesmo...

Por que é que a Ariana quer aprender crioulo?

Para falar com os amigos da escola - diz ela.

Sim, mas ela já sabe crioulo, porque a mãe fala com ela em crioulo. Afinal o que é que ela quer aprender?
Quer aprender um crioulo de outra ilha, da ilha da mãe da Eugénia...
Em Cabo Verde, como em Portugal, as pessoas falam a mesma língua, mas de maneira diferente. Já repararam, por exemplo, nas pessoas do Porto que dizem "binho" e "baca" , enquanto as de Lisboa dizem "vinho" e "vaca"?
Como a mãe da Ariana nasceu numa ilha diferente da mãe da Eugénia, as duas filhas falam de um modo também diferente.
É como se costuma dizer, "tal mãe, tal filha"...

Mas, às vezes isso não acontece... A Ariana tem uma amiga, a Joana, que também quer aprender crioulo, para falar com a Eugénia e com outros meninos da escola dela...
A mãe da Joana também fala crioulo, mas a Joana não... Porque será que ela não aprendeu?

E na nossa aula?


Que línguas falam os pais e os avós de cada menino?

Vamos ver o exemplo do Fábio:

Nome do aluno Línguas do aluno Línguas da mãe Línguas do pai Línguas da avó materna Línguas do avô materno Línguas da avó paterna Línguas do avô paterno
Fábio Crioulo de
Cabo Verde
Crioulo de
Cabo Verde
Crioulo da Guiné Crioulo de
Cabo Verde
Crioulo de
Cabo Verde
Fula Fula
  Português Português Português     Crioulo da Guiné Mandinga
      Fula        

Vamos preenchendo o quadro com o que soubermos sobre as línguas que falam os nossos pais e os nossos avós. Se não soubermos vamos procurar saber perguntando, em casa...

Porque será que umas pessoas falam umas línguas e outras outras línguas?

É que cada uma tem uma história diferente...
A professora também tem uma história. Vamos fazer-lhe perguntas para conhecer melhor a sua história?

  • Onde nasceu a professora?
  • E o pai?
  • E a mãe?
  • Que línguas falava o pai quando era pequenino?
  • E a mãe?
  • Que línguas é que os pais falavam com a professora quando ela nasceu?

Ficamos, então, a saber, que a professora nasceu em Lisboa, como a mãe, e que o pai da professora nasceu no Porto. Como nasceram todos em Portugal e falavam sempre em português, a professora também aprendeu a falar português, desde bebé...

Mas nem sempre assim acontece.

Vamos ouvir histórias muito diferentes: as histórias de alguns alunos. Por exemplo, o Fábio.
Se olharmos para o quadro das línguas, ficamos logo a saber um bocadinho da história dele.

Mas por que é que o Fábio não aprendeu Fula, se o pai sabe Fula...
Porque o pai nunca deve ter falado Fula com ele, quando era pequenino. Como a mãe não sabia Fula, talvez o pai tenha preferido aprender crioulo caboverdiano, para falar com a mulher e com o filho... Ou, então, o pai do Fábio foi trabalhar para longe, para outro país, quando o Fábio era pequenino, e só a mãe é que falava com ele...
Pode ter acontecido tanta coisa...
Mas isso o Fábio é que vai contar...

O Fábio conta a sua história

Agora digam lá: não era bom o Fábio também ter aprendido Fula?
Alguns pensarão: mas para que é que lhe serviria o Fula, aqui em Portugal?
Primeiro que tudo: o saber não ocupa lugar...
Agora, pensem bem. Nunca ninguém sabe como vai ser a sua vida, no futuro. Talvez um dia o Fábio volte para a Guiné, talvez vá visitar o avô... E que tristeza olhar para um avô e não lhe poder dizer nada, ouvi-lo e não entender nem poder guardar na memória as suas palavras de carinho e as suas estórias de outros tempos, cheias de sabedoria...

Saber línguas vale sempre a pena...
Podemos falar com quem quisermos, na língua que quisermos... Às vezes, até sonhamos numa língua, pensamos noutra, ralhamos ou contamos anedotas noutra...
(Nunca repararam nas pessoas que falam quase sempre em português com os filhos mas que, quando se zangam, falam em crioulo?...)

Por isso é que a Ariana quer aprender outro crioulo e a Joana quer aprender crioulo.

Se calhar já podemos responder, agora, à nossa dúvida: por que é que a mãe da Joana fala crioulo e ela não?
Basta conhecer a sua história, fazer algumas perguntas...

Vamos, então, contar (escrever ou contar oralmente) a história da Joana?

[ Dar dados que permitam aos alunos reconstruir a história da Joana]

Era uma vez uma menina que se chamava Joana...
A mãe nasceu em Cabo Verde, na ilha... Mas, como a vida era difícil, um dia resolveu procurar trabalho num país distante, a Itália...
Mas, depois,.... veio para Portugal...

etc...

Só que a história da Joana, felizmente, ainda não acabou... Ela só tem 5 anos e vai ter muitos, muitos mais anos para viver e contar.
Vamos ajudá-la a continuar a sua história...

  • Ela quer aprender crioulo, não quer?
  • Então, o que há-de fazer?
  • Ir à escola?
  • Mas ainda não há escolas onde se ensine crioulo caboverdiano, em Portugal.
  • Ir a Cabo Verde?
  • Mas ela agora vive em Portugal e os pais não têm dinheiro para fazer uma viagem tão cara...
  • Pedir à mãe que lhe ensine?
  • Será que a mãe tem tempo, andando, como anda, a trabalhar todo o dia?
  • Pedir à professora?
  • Mas a professora também não sabe crioulo...

Quem tem outras ideias?

Talvez um menino, talvez a própria Eugénia, aquela menina com trancinhas à frente e atrás, a possa ensinar...
Ou até o Fábio...

Vamos fazer um teatro. O Fábio pode fazer de Fábio. Quem quer fazer de
Joana? E de Ariana? E de Eugénia? Precisamos de um intérprete...Quando a Joana falar em português e o Fábio e a Ariana em crioulo, alguém tem de traduzir, não acham? Para explicar, em português, à Joana, o que eles estão a dizer em crioulo... Também podemos ter a mãe e o pai...

O que é que o Fábio pode ensinar?
Pode ensinar a dar os bons dias, a perguntar pela saúde de alguém, a mandar sentar...
Os meninos que sabem crioulo é que podem dizer...
Mas a Joana também pode dizer o que quer aprender. Não quererá ela saber, por exemplo, como se diz "posso brincar contigo?", "quantos anos tens?", "como te chamas?", "como se chama a tua boneca?", "eu vivo na Damaia, e tu?".

Pois é assim que a Joana pode aprender crioulo, ouvindo os meninos, falando com eles, pedindo à mãe que fale com ela, dando atenção às conversas no bairro...
E não se deve importar, se ao princípio não falar muito bem. Porque ela quer aprender. E quem quer muito, sempre consegue.

Que línguas é que os alunos também querem aprender?
E o que vão fazer para aprenderem?

Por que não começar já?
Vamos arranjar caixas de cores diferentes, uma para cada língua escolhida pelos alunos.
Cada aluno pensa numa palavra portuguesa. Vamos juntar as palavras todas numa lista e ordená-las alfabeticamente.
Agora é só começar a traduzi-las e pôr em cada caixa a palavra certa.
Para traduzir é preciso ajuda . Do dicionário, da Internet, dos pais, de amigos como a Eugénia, e do próprio professor que, afinal, é sempre um grande amigo...

A Joana quer aprender crioulo...
A Ariana quer aprender um crioulo diferente...
Todos queremos aprender muitas línguas...
Assim ficaremos mais ricos, mais capazes de comunicar com as pessoas e de lhes mostrar que gostamos delas... Tanto como a Ariana gosta da Eugénia.


Objectivos de aprendizagem:

- Reflectir sobre as línguas, o seu valor e as suas funções.
- Reflectir sobre as vantagens de falar ou de compreender muitas línguas.
- Compreender que o crioulo é uma língua como as outras.
- Relacionar a história linguística das pessoas com a sua história de vida.
- Tomar consciência da diversidade das línguas e das histórias individuais.
- Desenvolver o espírito de pesquisa.
- Desenvolver a capacidade de contar histórias.
- Compreender o importante papel da tradução na comunicação entre as pessoas.
- Desenvolver nas crianças o desejo e a capacidade de ensinar.
- Reforçar o papel activo da criança na escolha do que pretende aprender.
- Reforçar na criança o hábito de expressar os seus desejos e as suas vontades.