APRESENTAÇÃO
  Breve históriaO nomeConteúdosObjectivosUtilizaçãoProblemas e necessidades identificados  
 
 
  Breve história

O conjunto de páginas web qe se apresentam sob este endereço, bem como o CD-ROM Vamos conversar na escola – Nu ben papia na skola (a lançar brevemente) resultam da actividade do projecto de investigação-acção, com o mesmo nome, que decorreu entre 2002 e 2005, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do Programa de apoio a projectos de pesquisa no domínio educativo.

O projecto de investigação-acção Vamos conversar na escola – Nu ben papia na skola surgiu por iniciativa de docentes da Escola Superior de Educação João de Deus e contou com colaboradores de instituições de formação de professores como a Faculdade de Letras de Lisboa, a Escola Superior de Educação de Setúbal e o Instituto Pedagógico do Mindelo (Pólo do Instituto Pedagógico com sede na Cidade da Praia, Cabo Verde).

A iniciativa dos docentes foi influenciada pelos encontros com colegas de países europeus, através da colaboração em parcerias apoiadas pelo Programa Sócrates e Comenius, desde 1998. Foi possível observar as práticas do ensino bilingue ou da didáctica da língua segunda em turmas multiculturais, os materiais traduzidos em cada uma das línguas maternas presentes nas escolas (entre as quais, o português e o caboverdiano), o ensino precoce das línguas não maternas e a colaboração escola-família, nomeadamente em Roterdão, na Holanda, em Londres e em Copenhaga, na Dinamarca.

A outra influência significativa ocorreu ao longo da colaboração, desde 2000, com colegas caboverdianos, no âmbito do protocolo entre a ESE João de Deus e o Instituto Pedagógico do Mindelo (Ilha de São Vicente). O debate sobre a transição do jardim de infância para a escola e a iniciação à leitura na língua segunda, com os contributos da educação pela arte, reuniu educadores e professores, pela primeira vez, em oficinas de formação.

A partilha de ideias sobre as condições de sucesso da aprendizagem suscitou a ideia de adaptar experimentalmente os aspectos positivos e viáveis dos modelos inovadores de ensino da língua segunda ao ensino de português, em escolas de Cabo Verde e de Portugal.

A actividade do projecto desenvolveu-se segundo quatro eixos, articulados entre si: (a) a formação (inicial e contínua, de educadores e de professores do 1º ciclo do ensino básico), (b) a investigação (de docentes da formação inicial e de professores-estagiários do 1º ciclo do ensino básico), (c) a concepção e experimentação de materiais e sugestões metodológicas em escolas do ensino básico e (d) a disseminação.

O ensino do português como língua segunda foi tema de debates muito vivos entre professores portugueses e caboverdianos, ao longo de encontros e oficinas de formação. As conversas nas escolas reforçaram ideias comuns sobre as especificidades do ensino do português em diferentes contextos educativos, as vantagens do ensino bilingue (caboverdiano e português) nas escolas caboverdianas e a necessidade de diversificar materiais e metodologias para motivar os alunos.

Desenvolveram-se sinergias com o projecto de investigação-acção Continuar a ser criança, coordenado por Margarida Santos, do Instituto Pedagógico do Mindelo. Por um lado, alguns textos produzidos no projecto Vamos conversar na escola – Nu ben papia na skola foram utilizados na formação dos professores envolvidos no projecto Continuar a ser criança. Por outro lado, a experiência deste projecto proporcionou estudos de caso de aprendizagem bem sucedida de português por alunos de meio sócio-económico desfavorecido e enriqueceu a informação sobre as especificidades do ensino bilingue de português e de crioulo em Cabo Verde, fundamentado em teorias sócio-construtivistas da aprendizagem da leitura e da escrita.

Algumas escolas colaboraram em Portugal (escolas públicas do 1º ciclo do ensino básico, nos concelhos de Sintra e da Amadora, na periferia de Lisboa) e em Cabo Verde (escolas básicas integradas, cooperantes com o Instituto Pedagógico do Mindelo, nas ilhas de S. Vicente e de Santo Antão).

Os membros da equipa do projecto quiseram dar continuidade à dinâmica de reflexão interdisciplinar para além do final do projecto (Novembro de 2005). Para esse efeito, criam-se esta página Web (www.joaodedeus.pt/projectos/pl2) e o CD-ROM a lançar brevemente, concebidos para a formação de educadores e professores.

Procurou-se adaptar e operacionalizar algumas ideias chave de projectos pioneiros na sensibilização para o ensino de português como língua segunda, em especial os projectos coordenados por Glória Fischer, no Ministério da Educação, com apoio do Programa Sócrates. Estabeleceu-se ainda uma parceria com a Universidade Aberta, CEMRI, associada à rede MIR – Migration and Intercultural Relations (2002-2005), sobre a temática do ensino intercultural e do ensino da língua do país de acolhimento dos imigrantes, continuada na rede Learning Migration - Learning about migration and intercultural relations in school and teacher training (2005-2008).

O nome

Escolhemos o nome – Vamos conversar na escola – porque esta modalidade de comunicação entre alunos e professores tem um grande potencial educativo. A conversa favorece a aproximação. A iniciativa pode partir de qualquer participante e cada um recebe atenção positiva dos outros. Há um reconhecimento de que todos os participantes têm algo importante a partilhar. Isto valoriza o indivíduo como um todo - a dimensão enquanto pessoa e enquanto aluno – o que é especialmente relevante nas turmas ou escolas onde há alunos que não estabeleceram ainda uma relação de pertença ao grupo.

No enquadramento conceptual apresentam-se algumas referências teórico-práticas que fundamentam a escolha do nome, na perspectiva da educação linguística de todos os alunos.

O nome surge em duas línguas – português e caboverdiano – para representar simbolicamente a diversidade linguística e para celebrar o convívio entre o português e a língua de uma das maiores comunidades culturais e linguísticas do espaço lusófono.

Destinatários:

  • Crianças dos 5 aos 12 anos de idade.
  • Educadores de infância e professores do ensino básico.
  • Todos os alunos, independentemente da sua origem social e linguística, são potenciais destinatários.

O actual ensino das línguas caminha inevitavelmente para o ensino intercultural em resultado das orientações do Conselho da Europa (Alves:2001) e da adaptação a que Portugal se comprometeu, à semelhança de muitos outros países europeus. Aprender a comunicar e a respeitar todas as pessoas faz parte da educação básica para a cidadania. Adquirir competências gramaticais e comunicativas também é uma meta comum a todos os alunos e indispensável à estruturação do pensamento, à autonomia e ao domínio da comunicação oral e escrita.

Conteúdos

Os conteúdos estão organizados em dois blocos: Ensinar conversando e Aprender conversando.

I - Ensinar conversando

Este bloco aborda três áreas temáticas.

A primeira - Enquadramento conceptual – contém textos que fundamentam a conversação e o seu papel no desenvolvimento da aprendizagem da língua.

Reúne referências actuais para a educação linguística e para o ensino das línguas, na perspectiva do empowerment, isto é, do fortalecimento da afirmação pessoal de forma cívica, da autonomia e da assertividade na comunicação com os outros.

A segunda - Planificação em contextos de diversidade cultural - é um auxiliar prático da planificação do ensino de português e da avaliação da aprendizagem em turmas multilingues e multiculturais.

Apresenta:

  • sugestões de operacionalização dos conceitos teóricos através da abordagem pedagógica da conversação;
  • instrumentos auxiliares do ensino como, p. ex., listas bilingues de vocabulário temático em caboverdiano e em português, o Portfolio de Materiais Experimentais, com trabalhos originais ou adaptações de materiais da autoria de estagiários (educadores de infância e professores), para apoio à aprendizagem da língua não materna (língua segunda e língua estrangeira), o Guião de Análise de Materiais, que contém um conjunto de critérios para analisar, seleccionar e elaborar materiais para a aprendizagem da língua em contextos multilingues e multiculturais;
  • testemunhos de professores - nas Conversas passadas - sobre práticas de ensino de português em Cabo Verde e em Portugal.

A terceira - Investigar para ensinar – situa-se no âmbito da investigação-acção em meio escolar e descreve estudos de caso realizados em Portugal e em Cabo Verde.

Os textos de apoio à formação em investigação-acção sobre processos de ensino e de aprendizagem da língua incidem nas metodologias seleccionadas durante o projecto. Visam divulgar a investigação-acção já realizada no projecto Vamos conversar na escola – Nu ben papia na skola e incentivar outras iniciativas em escolas, com a participação de educadores e de professores.

O Estudo de Caso 1 (Investigar para ensinar) será acompanhado, no CD-Rom, de um pequeno filme que ilustra o processo e os resultados da aprendizagem reflexiva de português numa turma multilingue de 4º ano, no Cacém (arredores de Lisboa), com a aplicação experimental das propostas metodológicas do Portfolio Europeu de Línguas.

O Estudo de Caso 2 sintetiza a informação sobre o processo e os resultados do projecto de investigação-acção Continuar a ser Criança, coordenado por Margarida Santos, do Instituto Pedagógico do Mindelo (Ilha de São Vicente). Analisa os factores do sucesso do ensino bilingue a alunos com atraso na leitura e na escrita associado à desvantagem social e ao não domínio do português, em escolas caboverdianas. É ilustrado por ensaios de escrita e textos livres representativos da progressiva clareza cognitiva à medida que os alunos foram aprendendo a escrever com sentido, após vários anos de repetência por insucesso na iniciação à leitura e à escrita.

Duas listas bibliográficas oferecem sugestões para consulta e para pesquisa geral (psicologia social da educação, sociolinguística, currículo, educação linguística, ensino intercultural ensino e aprendizagem da língua segunda ou língua não materna) e específica sobre língua e cultura caboverdianas, e indicam páginas web especializadas.

II – Aprender conversando

Contém um ficheiro de fotografias legendadas e relacionadas com conteúdos curriculares - Ciências da Natureza, Língua (nomes de pessoas e de lugares), História - recolhidas em Portugal e Cabo Verde, como fonte motivadora para alunos e professores. Apresenta também um conjunto de textos e desenhos temáticos da autoria de crianças, exemplificativos de produtos da aprendizagem em trabalhos de projecto de aprendizagem de línguas.

 

Objectivos

  1. 1. Apoiar a planificação do ensino intercultural do português - como língua materna e como língua não materna - integrado nas outras áreas do currículo.
  2. Apoiar o controlo sistemático da aprendizagem de português pelos professores e pelos alunos.
  3. Promover a valorização dos saberes linguísticos e culturais adquiridos na diáspora. As crianças filhas de emigrantes portugueses, caboverdianos e outros aprendem um pouco de várias línguas e culturas, nomeadamente quando se reencontram com os familiares emigrados noutros países.
  4. Reforçar a aplicação pedagógica do princípio sócio-construtivista do ensino centrado no aluno: partir dos interesses e experiências dos alunos para ensinar novos conteúdos e estimular aprendizagens significativas.
  5. Contribuir para a divulgação do Portfolio Europeu de Línguas (versão portuguesa, de 2001, do modelo do Conselho da Europa - formato PDF), como instrumento de valorização das aprendizagens linguísticas e culturais de cada aluno, da aprendizagem reflexiva das línguas e da autonomia, em complemento dos objectivos anteriores.

Utilização

Os princípios pedagógicos que presidiram à elaboração são aplicáveis não só ao ensino do português e do caboverdiano, como de inglês língua estrangeira e de outras línguas, em diversos contextos culturais e na formação de educadores e professores.

No ensino

Os contributos da colecção são complementares de outros materiais para o professor como, por exemplo, gramáticas e referenciais didácticos para planificar o ensino de português como língua não materna na fase de iniciação.

A utilização das propostas deve ser flexível e adaptada às necessidades dos alunos para quem o professor prepara a planificação do ensino e da aprendizagem da(s) língua(s). Podem ser utilizadas na prevenção ou na recuperação do insucesso na leitura e escrita de todos os alunos, inclusive dos alunos que têm português como língua materna, em complemento das gramáticas e dos manuais escolares.

Os textos autênticos de crianças de várias origens destinam-se preferencialmente à livre escolha e utilização pelos alunos. Uma vez escolhido o texto, a criança poderá mostrar interesse em desenvolver algum tipo de exploração numa tarefa ou num pequeno projecto individual ou de grupo. Cabe ao educador ou ao professor adaptar a metodologia dialógica ou comunicativa utilizada na recolha.

No caso do ensino de português no contexto de Cabo Verde, a utilização das propostas fará mais sentido através do ensino bilingue. Os educadores e os professores estão familiarizados com o português oral e escrito (língua oficial e de ensino) e partilham, com os alunos, o caboverdiano como língua de casa e língua de comunicação na vida quotidiana. Esta situação facilita a motivação e a aprendizagem, especialmente dos alunos que se encontram na fase de iniciação ao português.

Na formação inicial e contínua

  • Os educadores e professores encontram textos com orientação sócio-linguística e com princípios seleccionados das teorias do ensino e da aprendizagem. Estas referências conceptuais poderão apoiar a tomada de decisões na elaboração do projecto educativo de escola e do projecto curricular de turma, na perspectiva da pedagogia diferenciada e da educação linguística. Os formadores também poderão utilizar alguns textos como base de reflexão sobre questões da gestão flexível do currículo em turmas cujos alunos falem outras línguas maternas com sistemas de escrita diferentes (p. ex., o chinês, o ucraniano, o árabe) ou, até, sem tradição de escrita (p. ex., o romani, o ronga de Moçambique ou o fula da Guiné-Bissau).
  • A ideia geral de recurso a textos livres poderá ser uma referência para novos projectos de investigação sobre a estimulação da reflexão comparada entre o uso da(s) língua(s) pelas crianças mais jovens ou sobre a optimização dos recursos da diversidade cultural. Poderá incentivar parcerias entre instituições de formação, especialistas de desenvolvimento da criança, autarquias e escolas do ensino básico.

 

Fundamentos para a edição da página web e do CD-ROM

Problemas identificados

- Em Portugal, o ensino do português como língua segunda ou língua não materna ainda não é planificado satisfatoriamente, apesar de o decreto-lei nº 6/ME/2001, de 18 de Janeiro (art.º 8º) referir que as escolas do ensino básico devem “proporcionar actividades curriculares específicas para aprendizagem do português” e do despacho normativo nº 7/2006 (princípios de actuação e normas). A formação teórica e prática dos professores ainda é insuficiente.

- Em Cabo Verde, o ensino de português como língua não materna já conta com alguns materiais com conteúdos culturais significativos para os alunos. No entanto, muitos professores apontam a necessidade de materiais variados para facilitar a aprendizagem desta língua que está pouco presente no quotidiano das crianças fora da escola.

Necessidades identificadas

- Prevenir o insucesso escolar e a exclusão escolar e social através da promoção da qualidade da aprendizagem da língua da escola.

- Motivar os alunos para as aprendizagens curriculares através da valorização das aprendizagens linguísticas e outras realizadas espontaneamente quando contactam com crianças que tiveram experiências de vida noutras regiões ou países.

- Contribuir para reverter o processo que conduz à perda da ligação da criança à língua dos pais e dos avós. A escola pode incentivar explicitamente a aprendizagem da língua de casa, por exemplo, se der visibilidade às diferentes línguas e se promover o contacto com diversas línguas e se sensibilizar as famílias para ensinarem a língua de casa e reconhecerem o seu estatuto social positivo. Este reconhecimento pode favorecer a estruturação da identidade individual e sócio-familiar das crianças, em particular da 2ª e 3ª gerações de migrantes.

- Reforçar o carácter transversal do ensino intercultural, da língua e das outras áreas do currículo nos textos de apoio à formação. Ao exemplificarem práticas de ensino com fundamentação teórica, deverão sistematizar os princípios e os modos de planificar para uma aprendizagem rápida do português e para a avaliação da aprendizagem, de forma a identificar práticas preventivas da exclusão escolar.

- Estabelecer parcerias entre instituições de formação, escolas do ensino básico e autarquias. Esta é uma das condições privilegiadas para desenvolver projectos que contribuam para a renovação dos conteúdos e das práticas de formação numa perspectiva de longo prazo.